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Interlagos, o Templo 12.09.08


Emerson em Interlagos 73 - Clique para ampliar
Essa é a maneira como sempre me referi a Interlagos na roda de amigos adolescentes “ratos de box” nos anos 70, nos quais o líder máximo do GPTotal, Edu Correa, estava incluído.

Recentemente descobri que bem mais gente chama Interlagos assim, e também é gente ali, na casa dos 50, pouco mais, pouco menos, que pôde forjar seu paladar automobilístico e motociclístico naquele abençoado pedaço do planeta, na arquibancada (a caixa d’água era o “point” favorito, certo Edu?), mas também no box, no barranquinho do Sol, na borda do Laranja ou na saída do Sargento...

Ver corrida em Interlagos era meu maior tesão. Cheguei ao ponto de saber exatamente onde estava carro X ou Y mesmo depois de desviar a atenção para outra disputa, para ir ao banheiro ou para dar uma mordida naquele cachorro quente frio e fuleiro vendido pela Ancar.



O tempo passou, e a pista – oh, pecado! – foi deturpada. Que era necessário encurtá-la para os padrões das competições atuais, leia-se F1, era. Mas nunca entenderemos a razão de não preservar os antigos traçados, que vocês bem sabem, eram dois: o anel externo e a estupenda pista completa de quase 8 km de extensão, onde não faltava um tipo de curva sequer.

Estrangeiros que pisavam por aqui faziam odes à visibilidade oferecida pelo circuito ao público sentado na arquibancada, capaz de enxergar 80% ou mais do espetáculo, mérito da feliz escolha do local, um anfiteatro natural, privilégio da mãe natureza concedido a um país que ali mesmo forjaria lendas do esporte, tais como Emerson, Nelson, Ayrton & outros.



No afã de encurtar a pista desprezou-se a história, sob o questionável argumento da insegurança, que curvas como a 1,2 e 3 ofereciam pela impossibilidade de aumentar suas áreas de escape. Questionável até a medula, já que na curva do Café o muro, duro que só, está pertinho.

Quem pilotou no Interlagos antigo sabe que aquilo era um nirvana. Estou entre estes, tendo circulado de moto nos estertores do traçado, mas jamais competindo, coisa que foi acontecer só recentemente no “lendário” Puma 22 do qual vocês têm acompanhado (têm?) as façanhas neste site.



Não à toa, a parte da pista que mais gosto é aquela que permanece como nos bons tempos. Começa no “S”, emenda no Pinheirinho, Bico do Pato e Mergulho, que efetivamente é a curva que mais gosto, uma esquerda em decida para fazer acelerando, passando marcha e encomendando a alma ao demônio com o carro escorregando rumo à Junção. Felizmente tem uma área de escape maternal, que perdoa até pedófilo.





Interlagos, o Templo...

Fiquei p.. da vida com Interlagos recentemente. Não com a pista, mas com quem a administra. Havia uma etapa do Campeonato Paulista marcada para os últimos dias do mês de agosto e que precederia o tradicional período de reforma, no qual durante inexplicáveis meses o autódromo fecha para os trabalhos que o deixam lindão, prontinho para abrigar o GP de F1.

Todo ano é assim, não foi a primeira vez e, lamento, não será a última que o calendário nacional é estuprado pelas necessidades do GP Brasil. Ou, melhor dizendo, pelo planejamento nas coxas dos trabalhos necessários.

Tenho certeza que nenhuma outra pista do calendário da F1 fecha por meses antes da etapa do campeonato mais seguido do automobilismo mundial. Mas aqui é assim. É SEMPRE assim, e danem-se pilotos e preparadores que vivem de Interlagos.

Antes de prosseguir, estabeleço uma premissa básica e óbvia: se Interlagos não constasse do calendário da F1, não existiria mais. Seria um loteamento de casas populares, um favelão ou outra coisa qualquer. Assim sendo, ok ficar alguns meses sem a pista, ok engordar bolsos de empreiteiros, políticos e quem quer que seja que mama na teta das sempre superfaturadas reformas para ter a única pista de padrão internacional de um país que, diga-se en passant, detém oito títulos mundiais na F1.





E quanto a Jacarepaguá, deformado, mutilado, em vias de extinção?

Pista estupenda, onde cobri meus primeiros GP de F1 como fotorrepórter. Plana e ensolarada, Jacarepaguá me fascinou desde o primeiro momento. Claro que no meu coração ocupava um degrau abaixo do Templo mas... que pista!

E não era só o traçado bem sacado que me fascinava, mas sim o entorno, a moldura de montanhas e lagoas, a vegetação exuberante. E falando em exuberância, impossível deixar de citar novamente a cena-emblema da F1 dos anos 80 em Jacarepaguá: num intervalo de treinos, a mulher do Elio de Angelis tomando sol de biquíni numa cadeira de praia no gramadinho que dividia o pit-lane da mureta de box. Charme absoluto, coisa de que nem o tão comentado GP de Mônaco pôde se gabar.



E eis que o Rio perdeu o GP de F1 para SP. E eis que perdeu também o GP do Mundial de Motovelocidade. O previsível declínio ocorreu.

O prefeito Cesar Maia, ao qual a palavra “maluco” está freqüentemente associada, mancomunado com o engomado Carlos Nuzman, do COB, estragaram Jacarepaguá para construir estruturas esportivas que – sabemos – ou serão mal-usadas ou pouco usadas, mas sempre mal mantidas pela municipalidade carioca. Este padrão de manter mal prédios e instalações públicas não é apenas dos cariocas, mas do brasileiros em geral. Vide, por exemplo, a catedral de Brasília, um símbolo da genialidade de Oscar Niemeyer, ícone da pátria e sua arte, em estado lamentável.

Mas voltemos a Jacarepaguá: à quadrilha comandada por Maia e Nuzman, uma pista não interessa nada. Aparentemente para eles automobilismo e motociclismo não são esportes dignos. Nada importa existir no entorno do autódromo de Jacarepaguá áreas que poderiam facilmente abrigar o parque aquático, o velódromo e todo o aparato construído no sagrado solo do circuito sem a mutilação da pista. Duvida? Digite “Jacarepaguá” no Google Earth e veja com seus próprios olhos.







Afora Interlagos e Jacarepaguá, tenho o privilégio de conhecer outras dezoito pistas mundo afora. Almeria, Jerez e Catalunha (Espanha), Assen (Holanda), Buenos Aires (Argentina), Hockenheim (Alemanha), Imola, Misano e Monza (Itália), Laguna Seca (EUA), Motegi e Suzuka (Japão), Sentul (Indonésia), Shah Alam (Malásia) e as nacionais Brasília, Londrina e Goiânia.

Ponto em comum entre todas as pistas fora do Brasil? Todas são bem mais cuidadas do que as nossas, incluído nisso o Interlagos pós todas as reformas, pois por mais que façam há problemas estruturais insolúveis, como por exemplo a gotejante e mal projetada torre ou as arquibancadas de alvenaria.

Não pensem que esta afirmação se dá pelo fato de que sempre que pisei nestes circuitos havia um grande evento. Nada disso. Almeria, por exemplo, é uma pista particular e nunca recebe eventos de porte mundial, e mesmo assim tem uma infra-estrutura enxuta mas decente, bem cuidada.

Resumindo, para a prática de qualquer esporte exige-se uma arena. E nossas arenas para automobilismo e motociclismo estão ou descuidadas ou cansadas. Não conheço a pista de Curitiba, da qual ouvi falar bem e mal. Bem pois é bem cuidada, e mal pois foi projetada desconsiderando as peculiares exigências de segurança do motociclismo. Também me faltam no currículo novidades como a nova Santa Cruz do Sul e o velho Tarumã no Rio Grande do Sul, ou o Virgílio Távora no Ceará. Como serão? Exemplares? Tendo a duvidar.

De todas as nacionais, a melhor e mais importante ainda é O TEMPLO.

Bendita seja a F1...

Roberto Agresti

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