Corridas que fazem falar, daquelas que geram comentários entre desconhecidos na fila do banco, no boteco ou na bomba do posto de gasolina são raras, ainda mais quando transmitidas pela TV a cabo, privilégio apenas de alguns telespectadores.
O Grande Prêmio dos Estados Unidos da MotoGP disputado domingo passado foi assim.
Para quem é habituée da motovelocidade, foi um GP daqueles para entrar na história como um dos mais alucinantes. Um duelo entre dois gigantes do guidão, Casey Stoner com sua Ducati e Valentino Rossi e sua Yamaha.
E para quem não é assíduo da motovelocidade, ter visto tal corrida pode representar um divisor de águas, inoculando no felizardo o poderoso vírus das disputas sobre duas rodas.
Rossi e Stoner presentearam os olhos de todos com um show de elevadíssima técnica e risco. O primeiro, ídolo confirmado, multicampeão de diversas categorias, nas últimas duas temporadas se viu derrotado mais do que por pilotos por condições técnicas desfavoráveis.
Stoner, sobre o qual ninguém apostaria um Yuan furado no início da temporada passada, “casou” com a específica e exigente Ducati e dominou como e quando quis em 2007, sagrando-se inesperado campeão da MotoGP.
O ano de 2008 começou sob esta grande sombra vermelha ducatista que logo se desfez, pois a rossa de Bolonha não mais parecia a moto à bater. Contudo, alguma mágica tecnológica – dizem ser uma evoluidíssima nova versão do controle de tração, permitido nas MotoGP, levou o pequeno grande Stoner de volta a glória.
Seja o que quer que tenha sido, a renascida Ducati colocou Stoner no pódio. E como! Três corridas seguidas, Inglaterra, Holanda e Alemanha, coroaram Stoner com o “hat trick”, ou seja, venceu saindo da pole e ainda fazendo a volta mais rápida em todos os GPs...
Para Rossi, líder do campeonato e até então o homem referência do ano, com a moto considerada até então a melhor do lote, tal demonstração tripla de força fez acender a luz vermelha no painel. Reagir era necessário e obrigatório.
E chegou o GP EUA, no tortuoso e radical circuito de Laguna Seca. Pista “das antigas” onde o talento faz muuuuita diferença.
Descrever com palavras o que a televisão mostrou domingo passado é inglório e, como a grande parcela dos leitores do GEPETO sabe muito sobre Fórmula 1, à titulo de comparação remeto os desafortunados que não assistiram à contenda ao duelo Arnoux Vs. Villeneuve em Dijon-Prenois, no GP da França de 1979.
Tal qual o canadense e o francês com seus carros, Rossi e Stoner levaram a disputa ao limite do inimaginável, porém sempre dentro das regras da etiqueta bem particular do motociclismo. O contato entre motos e seus pilotos não é pecado nenhum, mas não se admitem freadas antecipadas como o incauto comentarista quis insinuar ter ocorrido quando o duelo terminou com Stoner na caixa de brita e Rossi rumando para sua mais importante e bela vitória dos últimos tempos.
O que se viu em Laguna Seca foi o duelo limpo entre duas gerações diferentes montadas em duas escolas diferentes de motos. O “velho” Rossi mostrou a Stoner como se freia e como se percorrem curvas com suavidade e maestria, desenhando trajetórias dignas de um Michelangelo do guidão. Sua Yamaha devia em velocidade máxima e esbanjava maneabilidade.
Ao jovem Stoner coube a parte do jovem leão: forte, irrascível, agressivo e perigoso. Pronto a expulsar o leão mais velho usando todos os recursos possíveis, ao jovem australiano faltou apenas a calma que só a experiência traz para poder explorar a verdadeira erupção de potência de que só sua Ducati é capaz atualmente.
Ambos, Rossi e Stoner, pilotos de outro planeta, de outra galáxia se comparados aos restantes, apenas humanos superdotados e não deuses do guidão em tarde inspirada.
Os dois no Saca Rolha
Como um Tintoretto, último grande mestre da renascença, Valentino pintou com cores fortes e traços decididos nas curvas do traçado californiano sua vontade de voltar a ser o número 1 do mundo. Bater Stoner, quebrando a incrível seqüência do australiano serviu para fazer ver ao mundo e principalmente a ele mesmo que “The Doctor” ainda é o melhor da mais espetacular modalidade do esporte à motor.