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| » » » 30.04.08 |
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| Gasparzinhos nada camaradas |
30.04.08 |
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| Nelsinho dá uma escapada em Barcelona |
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Desligo a TV vendo Raikonnen sorvendo o champanhe da vitória diante dos espanhóis. Foi uma corrida chata. Seria chatíssima não fosse pelas pequenas emoções oferecidas pela largada, onde Massa superou Alonso, uma ou outra porradinha e a pancada forte de Kovalainen, esbudegando a McLaren, salvando ossos e pele, felizmente.
Imaginava diferente essa temporada. Sem o controle de tração, esperava ver mais atravessadas, mais exibicionismo, mais virtuosismo explícito, mais equilíbrio nas disputas. O GP da Catalunha, primeiro na Europa, me fez ver que não será assim: a Ferrari sobe, a McLaren desce, a BMW parece, a Renault padece. O resto – paciência – é o resto.
No ano passado havia a novidade Hamilton, que este ano nem mais novidade é, e não consegue repetir-se. Tal pobreza de emoções contrasta com a riqueza das soluções para evitar emoções.
Das magias eletrônicas de outrora, agora balizadas, reduzidas, limitadas, passamos às magias aerodinâmicas como foco das atenções. Uma proliferação de asinhas, asonas, perfis, rebarbas e recortes, miríade de apêndices destinados a garantir eficiência na dura e crua tarefa de cortar o muro de ar proporcionando – claro – a melhor das penetrações (ui!) com muito equilíbrio e demais dotes: down force, alguma sensibilidade a regulagens “y otras calidades más” como se diria na língua do Rei Juan Carlos, elegante presença no pódio de Montmeló.
A cavalaria dos motores da F1 atual e a tremenda evolução dos chassis e pneus (no que pese os ridículos risquinhos inventados a mó de reduzir o grude no asfalto, grande bobagem!) puxaram a aerodinâmica da F1 para níveis de avião de caça. Só que o problema decorrente é o que vimos na Espanha, com o tormentado turbilhão de ar formado na traseira desses F-16 e Mig-29 de quatro rodas impedindo que um piloto persiga o carro da frente bem de pertinho para dar o bote. Nem nas retas dá para colar no rival, sob pena de perder a fundamental pressão nas complexas superfícies e sair voando, ou não conseguir frear ou nem sequer enxergar direito tamanhos os tormentos criados pelos invisíveis vórtices, gasparzinhos nada camaradas, crias da profusão de asinhas, asonas, perfis, rebarbas...
Solução? Não sei. Mas que desse jeito está chato, está. E também feio, e sem graça, pois todos os carros – pinturas à parte – estão muitos parecidos e bem estranhos.
Uma parente que mora na Europa soube que havia um plano de construção de uma usina nuclear perto da casa dela. Disse que preferia voltar à era da luz de vela a conviver com o monstrengo atômico na vizinhança. E pelo jeito não era só ela a pensar assim, pois a mobilização dos moradores do local mandou o projeto da usina para a cucuia, localidade bem longe da casa dela.
Mesmo com o risco de parecer retrógrado, aplico este raciocínio à Fórmula 1 atual: melhor voltar à chama da vela, onde tudo começou. Ou talvez um pouco mais adiante, ao lampião de querosene. Receitas construtivas menos críticas, capazes de aliar excelência técnica a um certo trabalho de volante, onde o piloto voltasse a fazer alguma diferença, seria o ideal.
Sei que é impensável exigir que a tecnologia aplicada nas competições de alto nível dê uma marcha a ré exagerada, mas uso um exemplo bem sucedido, que é o do mundial de motovelocidade, no qual não há um grande freio ao desenvolvimento de motores – a não ser em termos de capacidade cúbica, claro, e utilização de matérias-primas dispendiosas – e na qual a eletrônica está totalmente liberada. Porém, nas carenagens há, e como, uma tremenda restrição regulamentar. Aos mais interesados no tema indico o http://www.fim.ch/EN/rules/Sportifs/ccrGP/2008/GP_tech_en.pdf onde lendo o item “2.7.7 Bodywork” será possível compreender a razão das motos do mundial se parecem tanto com as motos que você vê nas ruas, e vice-versa.
Tais restrições a formas muito elaboradas nas carenagens das motos ocorreu em função de acidentes ocorridos no início dos anos 60, quando carenagens com formato de torpedo, cobrindo totalmente a roda dianteira, começaram a se popularizar. Eficaz quanto à penetração aerodinâmica, tal carenagem era sensibilíssima a ventos laterais e quaisquer perturbações causadas até mesmo por uma mera ultrapassagem de um adversário. Assim, depois que uma dúzia ou mais de arrojados pilotos ter decolado com tais foguetinhos, quebrando ossos por atacado, reprimiu-se o modelito.
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| Três exemplos dos foquetinhos dos anos 60 |
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Na Catalunha, Raikonnen largou na frente e foi embora. Massa, num carro quase igual (a asa traseira era diferente), ficou o tempo inteiro em 2º. Jamais uma ameaça, jamais a mais remota possibilidade de duelo. OK, sabemos que tanto na Ferrari como nas outras equipes da F1 que contam as disputas internas estão proscritas em contrato. Mas, e se Hamilton encostasse de verdade em Massa, como quase fez no final? Resposta: daria de cara com as tais barreiras invisíveis criadas pela elaborada aerodinâmica e teria que enfiar sua viola no saco, ou esperar pelo improvável, ou erro ou quebra do rival.
Grande exemplo disso tivemos quando Heidfeld e sua velocíssima BMW só passou Fisichella e a manquitola Force Índia após quase dez voltas de perseguição, por conta de um erro do italiano.
Saudosista sou e sempre serei, assim como sempre serei amante das corridas de carros e motos, sejam elas disputadas com muitas asinhas e nenhuma eletrônica ou o contrário. E pelo próprio fato de assistir corridas desde os anos 60 que posso dizer que do jeito que está, não está legal. Sei isso. Sabemos todos disso.
A tarefa de trazer de volta o espetáculo não é das marcas, das equipes, dos projetistas, turma essa marcada por interesses conflitantes, que esbarram em opostos: a dispendiosa criatividade exibicionista do homem da prancheta e os orçamentos cada vez mais apertados das equipes.
E se não é deles, de quem é a tarefa?
Da FIA, que porém não parece ter poder nenhum para determinar absolutamente nada em termos de regulamento sem a benção de Bernie Ecclestone. Difícil a parada, hein?
E fora todo esse imbroglio, há os circuitos. A justa perseguição por segurança via grande áreas de escape fez surgir traçados sem nenhuma personalidade, que não cria, estimula nem provoca condições ao espetáculo da pilotagem pura. Se é para não ter ultrapassagem, muito melhor que o GP de Catalunha é o GP de Mônaco, onde ao menos a perícia pode ser medida pela capacidade de passar a milímetros do guard-rail. E ao fundo tem uma cidade bonita, os iates no porto, a mundanidade do jet-set...
O fascínio da F1 é resistente a maus tratos de variadas ordens, políticas e regulamentares, e por isso, com ou sem disputas, o séqüito de fiéis que gruda os olhos na TV aos domingos ainda é tremendo. Mas eu gostava mais do tempo em que os carros andavam de lado, em que o volante era mais “trabalhado”, coisa que muitos dos fãs da F1 atual sequer imaginam o que seja.
No meu caso, acostumar-se com o pior sabendo como era ou poderia ser melhor é dureza.
Roberto Agresti
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