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O pódio, um estranho lugar 09.04.08


Estive ali diversas vezes. Em volta, na frente, atrás.

Os concorrentes da divisão D2C2
Mas só olhando. Olhando muito, imaginando o dia em que de fato e de direito pisaria ali, em qualquer degrau. Qualquer um deles, pois pódio é sempre pódio, e estar nele significa muito - principalmente para quem está nele!

Mas não sabia se iria nem ao menos tentar, pois conseguir pisar no pódio não é fácil. Depende de posses, de disposição, de algum talento e de certa dose de coragem.

Mas meu dia chegou. Sábado passado, dia 5 de abril de 2008, quando um sexto lugar na estréia no Campeonato Paulista de Automobilismo me deu uma vaga num daqueles degraus gloriosos.

Nada menos que seis – sim seis! – são os pilotos tem direito à honra de ocupar um degrau do pódio e cumprir o rito todinho, composto de chamada pelo nome, troféu, fotos e se esquivar dos borrifos de champanha ejaculados pelo vencedor.

Roberto, aqui e nas fotos abaixo, durante a corrida. Todas as fotos são de Rodrigo Ruiz
A generosidade dos organizadores em colocar seis onde normalmente são três a pisar faz pensar. Faz pensar que assim é para deixar mais pilotos contentes, e se o público presente às etapas do automobilismo regional brasileiro é mirrado, ao menos o pódio é bem servido.

Mas, vamos ao que interessa: a gênese desse conquistado pódio.

Como todos vocês, fãs encarnados do automobilismo em todas suas formas, variantes e protuberâncias, eu sempre quis estar ali, na pista, dentro de um cockpit. Qualquer um.

Houve um tempo em que acreditei fortemente ser a reencarnação de Wolfgang Von Trips, Alberto Ascari ou Jim Clark. Talento aos baldes, vocação pura e bruta, destino certo e reto: o título de campeão mundial.

A pouca grana da família na minha juventude apagou esse pretensioso incêndio de paixão com uma cuspida, pois antes mesmo de aprender a dirigir um carro de verdade, entendi que ser piloto é coisa para abastados, para uma elite que pode custear cada caro degrau de uma carreira no automobilismo, do kart à F1.

E daquele dia onde o pré-adolescente durango descobriu que não ia dar mesmo, até o dia em que deu, passaram-se quase quatro décadas.

Quatro décadas capinando uma carreira no jornalismo, que me deu a chance de, só agora, na beira dos 50 anos de idade, comprar um carro de corrida de verdade.

Ok, não muito de verdade. É um Puma, feito em 1979, mas todo metido a besta, com santantônio, painel enjoado, rebaixado até o saco e com uma certa cara de mau apesar do motor fraquinho.

Com ele me inscrevi no Campeonato Paulista de Veículos Históricos de Competição, divisão D2C2, a dos motores até 1600cc. Nos treinos livres, em pista molhada, tentei não errar muito, mas não escapei de uma fragorosa rodada que me ancorou na zebra da saída do S do Senna. Para minha humilhação completa, o motor se recusou a pegar e o Puma só saiu dali rebocada, mas não antes da passagem de vários pilotos concorrentes cujo olhar de desprezo entrevi pela fresta das viseiras.

Dia de corrida.

Precisava chegar cedo a Interlagos para a vistoria. Sai de casa já de macacão, atrasado, preocupado, olhando o céu cheio de nuvens. Vai chover de novo?

Nesse campeonato, o grid de largada é definido na manhã do dia da corrida e lá fui eu. 29º tempo em 38 participantes. Não o último, mas bem perto dele. Consolo? Dois da minha categoria atrás de mim, em 36º e 37º. Cara salva, pensei.

Três horas depois de marcar aquela que ainda agora é minha melhor marca para a volta em Interlagos, pífios 2min14s637 (me aguardem, um novo motor mais forte virá...) fui para o alinhamento de minha 1ª largada com o estômago peludo e um nó na garganta.

O besta aqui ficou nervoso, claro, mas os fatos foram mais rápidos que as eventuais conseqüências do nervosismo. Na luz verde acelerei e um monte de gente queimou a largada, me passando. Na temida freada do S do Senna, passei esse montão de gente e me animei. Os pelos caíram do estômago e o nervoso e a ansiedade deram lugar a mais deliciosa droga, a adrenalina.

Desci o S do Senna “me achando”, e na reta oposta engoli mais dois, para, logo depois, na curva da descida do lago, pagar caro por tanta soberba. Cheguei animado demais, tive que alargar a trajetória para não rodar e acabar na área de escape, e assisti a todos que passara me passarem de novo, e os olhares de desprezo pelas frestas de viseiras alheias estavam ali, eu sei...

Fazendo jus a minhas origens camponesas, lá fui eu, o volante-enxada na mão, arando curvas, podando um a um dos concorrentes como se fossem ramos secos, obstáculos à minha colheita futura, o pódio.

Feliz, tranqüilo, diligente, durante treze lindas voltas me realizei. Ver a bandeira quadriculada agitada após um belo duelo final – perdido, é claro – para um Porsche 914 amarelo lavou minha alma.

Roberto (à esquerda) no pódio
E de amarelo não havia só o Porsche, mas também bandeiras agitadas, que segundo os comissários não vi, e que me renderam 20 segundos somados ao meu tempo que me jogaram do 17º para o 19º lugar final entre os 38 que largaram, e que em nada alterou meu 6º lugar na categoria.

E essa foi a minha estréia. Emocionada, ansiada, batalhada.

De alguém que sempre esteve do lado de lá do cockpit, mas sempre quis estar dentro dele. E tudo isso acontecendo em Interlagos, onde tudo começou.

Roberto Agresti

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