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Hamilton e Stoner: bichos insulares 19.03.08


Alguma efeméride de relevante importância no ano do senhor de 1985?

Lewis comemora a sua vitória na abertura do campeonato
Que eu me lembre, enquanto Alain Prost maturava seu 1º título na F1 e Tancredo Neves alinhavava sua eleição para presidente, dois nenês-fenômeno chegavam ao planeta em dois pontos bem distantes: Lewis Hamilton na Inglaterra, em janeiro e, dez meses e alguns dias depois, na Austrália, o campeão 2007 da MotoGP, Casey Stoner.

Nasceram distantes, mas ambos súditos de sua majestade. God save the Queen!

Baby Stoner e kid Hamilton devem suas carreiras à mãe em comum, a grande e velha Bretanha, a pérfida Albion e seu devotado culto aos motores. Seus daddys, que não só merecem os parabéns pela fértil cópula que levou a concepção desses dois artistas, também ganham palmas por terem regado convenientemente o canteirinho onde tais criaturinhas se desenvolveram.

Os Stoners eram ruins de grana, mas aquele ruim de 1º mundo, que não impediu ao jovem Casey ter uma pequena moto e se destacar na paisagem das corridinhas para garotos lá na ilha-continente conhecida também como Down Under, a Austrália. Mesma coisa com o pequeno Lewis na ilhota fria e úmida, lambida pelos ventos do Mar do Norte. Os Hamiltons eram da classe média-média, mas conseguiram, sem grandes proezas, colocar o pequeno Lewis atrás de um volante logo cedo.

Tais situações, aqui no Brasil, acontecem só em camadas do bolo social que ficam mais próximas do chantily do que da reles bandeja...





Aos fatos: Lewis venceu o GP da Austrália no domingo. E vencerá o Mundial se tudo caminhar pelas rotas usuais. Vencerá sem sobressaltos se seu McLaren não evidenciar capenguices. E se acidentes de percurso ou “no” percurso deixarem o rio seguir seu curso.



Arriscada esta previsão? Que nada! É até covarde dizer que ele será campeão pois no panorama atual da F1 “não tem bão” pra ele.

E, da mesma maneira que Lewis venceu um conturbado GP flanando sobre os problemas alheios, sobre dificuldades que são gigantes para uns e invisíveis para ele, Casey Stoner reafirmou seu domínio na MotoGP na 1ª corrida do ano, o incrível e esplêndido GP noturno no Qatar de semanas atrás. O menino também se encaminha, lisinho, para um título. Mais um.

Stoner é o cara. Lewis também.

Stoner, com o perdão do semi-trocadilho, tira leite de pedra. No caso sua pedra é uma Ducati, moto cuja arquitetura é, ao mesmo tempo, fabulosa e aterrorizante. Um chassi feito de simples tubos de aço cromo-molibdênio num universo dominado por elaboradíssimas estruturas mistas de alumínio extrudado e fundido não é apenas exoticidade.

É “demanding”, como se diz na língua de Stoners e Hamiltons.

Exige um algo a mais, uma pilotagem “física”, uma interpretação e atitude ao guidão que atualmente só o rapazola do país dos cangurús está sendo capaz de realizar adequadamente.

Um motorzão num chassis de canos: teu nome é Ducati!



É como se um dos atuais carros da F1 tivesse, no lugar do estupendamente complexo chassi de fibra de carbono, uma gaiolinha de tubos revestidos de painéis de alumínio e honeycomb, técnica dos anos 60 ou 70. Mas tais paralelos não têm sentido: moto é moto, carro é carro.

Lewis e Casey são carne carne e osso osso, e estão no topo.

Lewis, dissemos, flanou sobre os problemas da nova F1 no primeiro GP da temporada. Casey, forte como sua Ducati, arrasou na iluminada escuridão da desértica etapa no Oriente médio, capitulo inicial do ano da MotoGP.

Assim como o piloto da McLaren ignorou Raikonnen e o favoritismo que dava como líquido e certo o poderio do carro rosso-maranello, Stoner fez coala-e-sapato de seus adversários, entre os quais há um brilhante, o tal Valentino Rossi, que venderia sua alma ao capeta para vencer este GP de abertura e provar a si mesmo, e ao resto do planeta, que pode voltar a ser o que foi durante muito tempo: um legítimo Casey Stoner latino!

Como Alonso?

Sim, como faria Alonso em sua pródiga volta à Renault.

Não entendam mal. Nem Rossi nem Alonso são páginas viradas. Estão sendo, mas ainda não são.

Stoner no Qatar
Lewis e Casey são o que começa e não o que está terminando, são o que veio e não o que está indo. São bichos insulares que, como sempre, ou são muito diferentes, ou muito peçonhentos ou... ambos!

Nesta F1 de 2008 onde o volante voltou a ser girado com fé para conter aquilo que a eletrônica se encarregava em conter, onde a maestria do piloto fica mais visível, exposta, o pupilo de Ron Dennis, o melhor estreante jamais visto em toda a história da Fórmula 1, mostrou que para ele – com ou sem controle de tração – a vida é lá na frente, na ponta.

E na MotoGP onde, apesar das mágicas eletrônicas, quem sempre ditou as regras foi o piloto e não mandracarias, é Stoner o equivalente.

Aquele que até o fim da temporada 2006 só caia.
Aquele da moto da pequena marca italiana, à qual ninguém se adapta.
Aquele que faz tudo parecer tão fácil.
Aquele que confirma a máxima do mundo das motos, que reza que um piloto rápido que cai muito pode aprender a não cair, mas que um piloto que nunca cai dificilmente aprende a ser rápido.

Casey e Lewis. Bichos insulares. Estranhos, peçonhentos, e vencedores.

Roberto Agresti

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