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Home » Colunas » Roberto Agresti » 21.01.08
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Buraco no alambrado III 21.01.08


Na metade dos anos 70, se havia algo que realmente me fazia acordar domingo cedo e chacoalhar por duas horas dentro de alguns ônibus era assistir corridas de turismo.

Ver correr Chevettes contra Dodginhos, Fuscas e Corcéis era o antipasto para o que eu considerava o mais saboroso espetáculo do dia: os Maverick batendo nos Opalas.

Na minha turma do bairro, feita de fanáticos por motores, a divisão foi bem clara: amigos amigos, corridas à parte, e enquanto uns eram pro-Opala, e eu havia criado um bem-sucedido séqüito de xiitas pro-Ford.

E qual a razão desta minha preferência?

25 Horas de Interlagos, 73
Muitas: o som do V8 era indiscutivelmente mais sedutor e eu me considerava – como já contado nestas bandas – uma espécie de mascote da poderosa equipe Bino, muito ligada à Ford. Outro componente desta preferência era que, na época, o motor que matava a pau na Fórmula 1 era o Ford Cosworth, um fascinante V8 também. Porém, fundamental para minha escolha foi estar presente à corrida de estréia dos Maverick no Brasil, a 1ª edição das 25 Horas de Interlagos, em 1973.

Na ocasião, muitos Opala inscritos e apenas cinco Maverick. Os Opala vinham sendo usados em pista desde seu lançamento, em 1968, mas assim mesmo os rivais da Ford, ainda uma incógnita em pista, dominaram.

Opalas da Divisão 3 prontos para a largada em Interlagos, em foto do Rogério da Luz, tiradfa do site da Federação de Automobilismo de São Paulo
Apesar de mais beberrões, os carros estreantes ocuparam quatro das cinco primeiras posições ao final da maratona, vencendo por 45 segundos de vantagem o insidioso (e a partir dali por mim execrado) Opala. Me apaixonei completamente pelos Maverick e, para minha felicidade, a seqüência desta guerra recém-começada seguiu no mesmo tom, quase sempre faturada pelos veículos da Ford, até pelo menos 1976.

Na época eu considerava tal domínio um claro sinal da superioridade tecnológica face aos rivais da Chevrolet, dotados de motores seis cilindros em linha. Hoje percebo que o buraco era mais embaixo, uma vez que a cavalaria do motor Ford de 5 litros era evidentemente mais fornida do que a do “pequeno” 4,1 litros da GM. Questão de tamanho, puro e simples. Mas pouco me importava então se a guerra era justa ou injusta. O que interessava era rir dos que torciam para os Opala, quase sempre perdedores da chamada Divisão 1 da época, onde os carros pouca preparação recebiam.

Opala de Bob Sharp, Jan Balder e José Carlos Ramos
Heróis como Jan Balder e Bob Sharp, de Opala, tomaram pau de Bird e Nilson Clemente estreando nos Maverick naquela memorável 25 Horas de 1973. Tal evento deu o tom da época, um dualismo que criou polêmica e atraiu muita gente para as arquibancadas.

Patrocinadores, público, pilotos de renome, disputas renhidas... saudáveis ingredientes que alimentaram o automobilismo nacional naqueles anos pós-crise do petróleo.

O Maverick vence em sua estréia
A categoria mór do automobilismo brasileiro atual, a stock-car, apesar de disputada e muito mais sofisticada em termos técnicos do que aquela tosca Divisão 1 feita de Opalas e Mavericks praticamente originais, nem de longe me parece provocar arrebatamente semelhante ao vivido naquela época.

Saudosismo? Claro que sim!. E o que mais você esperava?

Roberto Agresti

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