Junto coisas. Jogar fora, jamais. Acumular, sim! Este é o meu lema.
Gostar de corridas não basta. É preciso ter coisas para pegar, olhar e dizer para os outros “EU TENHO”, e esperar o olhar de admiração combinada com inveja. Glorioso ser alvejado por esse olhar.
Coisas de papel, metal, plástico, borracha. Coisas relacionadas com motor, com bandeira quadriculada, com automóvel, moto...
O Ferrari Squaletto saído da caixinha
Tinha uns 8 anos quando recebi um cartão postal da zia Vittoria da Itália. Em vez da Piazza Navona, do Coliseu ou da torre de Pisa, uma moto vermelha e prata, correndo no que parecia ser uma floresta. Atrás, a identificação: Giacomo Agostini con MV AGUSTA – Campione del Mondo 500 – anno 1966.
O postal foi para a caixinha, onde já estavam alguns carrinhos, entre eles o mais querido, vermelho, a primeira Ferrari F1 com motor traseiro, a 156 “shark noose” ou “Squaletto”, onde gente como Wolfgang von Trips, Giancarlo Baghetti, Phil Hill e outros sentaram (a bota) e venceram.
Ferrari Squaletto, o de verdade
Mais para a frente, assisti Grand Prix, o filme de John Frankenheimer, o melhor filme sobre corrida de todos os tempos segundo eu mesmo, e todos nós, viciadões. Vi e revi o filme, certo de que aquilo era o melhor dos mundos. Mas dele só podia guardar as imagens, os nomes, a música, tudo na memória. Nada para pegar na mão e olhar quando quisesse.
Um dia minha mãe comprou uma revista italiana. Talvez a Oggi, a Grazia ou a Amica, e nela achei o “pedaço” do filme Grand Prix que tanto queria: uma grande foto do Pete Aron (James Garner) conversando com o chefão Agostino Manetta (Adolfo Celi) na oficina da Ferrari em Maranello. E lá foi a foto para a caixinha...
Garner e Celi gravam Grand Prix
Em fins de 1969, substituí a compra de Tio Patinhas e Pato Donald pela Quatro Rodas e Auto Esporte. Coleção esta que alimentei depois com edições da QR vindas dos rolos que fiz com um certo Eduardo Correa no ginásio, rolos que incluiram preciosas Auto Sprint italianas e – acho – alguns adesivos legais.
Data importante na catança desses amuletos/collectibles: uma exposição de carros de corrida que aconteceu na Praça Roosevelt, em São Paulo, 1972: saí de lá com algumas fotos ruins que eu mesmo fiz com minha Instamatic 50 e – tesouro! – as tampinhas das válvulas dos pneus da Ferrari 312B de Jacky Ickx e do Tyrrell 003 de Jackie Stewart!
Pouco antes disso, zanzando no pátio do Detran de São Paulo, achei uma “pérola negra” jogada ao relento, ao sabor da intempéries: um contagiro mecânico SMITHS Made in England i-g-u-a-l-z-i-n-h-o ao mostrado na épica abertura do “meu filme” Grand Prix.
O Smiths em Grand Prix
O tempo foi passando, as revistas transbordando dos armários e estantes, e a caixinha recebendo uma e outra jóia até que um dia, cheguei lá, na Fórmula 1, e a trabalho. Não como piloto, como gostaria e merecia(!!!), mas como fotógrafo da revista Motor3 e do anuário de Fórmula 1, do Chico Santos. Saí de Jacarepaguá com uma preciosidade: a lateral de fibra de carbono do bico do carro do Patrick Tambay, o Renault RE 50, abandonada num reles latão de lixo e “salva” pelo tarado aqui.
O tempo foi passando e um belo dia cometi a insânia de casar, e uma insânia maior ainda foi acreditar que minha mãe iria suportar aquele monte tralhas no que tinha sido meu quarto.
Da fúria faixineira sobraram pelo menos as revistas e os livros, mas perdas ocorreram, tais como o citado bico do carro do Tambay, um genuíno volante F1 fabricado pelos irmãos Fittipaldi (também catado no pátio do Detran) e tudo que segundo Dona Flora juntava pó, ocupava espaço ou era cacareco aos olhos dela.
Meu Smiths
Salvaram-se o contagiro Smiths, a foto do Garner e do Celi, as tampinhas “Ickx-Stewart” e... a paixão pelos motores, intacta, abençoada por esses (e outros) amuletos.