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| » » » 30.11.07 |
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| Buraco no alambrado II: Temporada de F2 de 1972 |
30.11.07 |
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Em 1972, o Brasil era um país estranho. No ano do sesquicentenário (argh! que palavra!) da Independência, o tal milagre econômico bombava e os adesivos “Brasil, ame-o ou deixe-o” nos Fuscões e Corcéis mostravam que o povão queria mesmo é amar, e deixar rolar.
E rolava Emílio Garrastazu Medici, presidente milico desse período conhecido como “os anos negros da ditadura”, que apertava o cerco nos camaradas da ALN, VAR-Palmares e MR-8. Nas aulas de Educação Moral e Cívica (?!?!?!?) tudo isso passava ao largo e eu, pouco antes de completar 14 anos, não fazia idéia de quem eram Carlos Lamarca, Marighella e nem que lá no Araguaia rolava uma guerrilha sangrenta. Política não estava no meu rol de interesses, mas motores sim, muito! Surrupiar o Fuscão (sem adesivo ame-o ou deixe-o...) do meu pai sempre que desse e ler absolutamente tudo sobre automobilismo eram minhas atividades favoritas.
Emerson Fittipaldi acabara de se sagrar campeão do mundo da Fórmula 1, o mais jovem da história até então, e paulistano como eu. Quanto orgulho! Sabia tudo sobre ele, seu carro, sua equipe e o que fez ou deixou de fazer em cada GP daquela temporada. Era meu ídolo e – claro – eu mesmo me sentia um pouco campeão do mundo. Afinal eu já torcia quando ele estava ao volante de um Fusca, enquanto a maioria só foi prestar atenção no cara quando o volante era o do Lotus.
Naquele fim de 1972 não via a hora de rever o laureado Emerson em ação e a chance chegou com a temporada de Fórmula 2 disputada em Interlagos em novembro, míseros dois meses depois do glorioso GP da Itália em Monza, onde o Rato fechou a fatura do campeonato.
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| Pace na pole, Emerson no meio e Mike Hailwood olhando O inglês deu pau no Emerson |
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A lista de participantes daquela temporada da F2 brasileira era chique e eu, que por razões obscuras havia perdido a temporada do ano anterior, decidi que não perderia um segundo sequer dessa vez.
Era um período interessante do automobilismo internacional pois, uma vez encerrados os campeonatos das categorias principais, carros, equipes e pilotos se engajavam em “excursões” por localidades sem os rigores do inverno europeu e que não eram ungidas pelos calendários oficiais. A Tasmania Cup na Austrália, a Springbook Series na África do Sul e as “Temporadas” argentina e brasileira são bons exemplos desse tour que poderia ter nome de faroeste: “Por um punhado de dólares...”.
Emerson Fittipaldi, seu irmão Wilson, o ascendente José Carlos Pace eram as estrelas nacionais do torneio. A eles juntaram-se outros pilotos verde-amarelos como Lian Duarte, Chico Lameirão, Pedro Victor de Lamare e o menos expressivo Silvio Montenegro.
No cardápio gringo estavam o campeão da F2 naquele ano, Mike Hailwood, o vice Jean-Pierre Jassaud e gente do naipe de Ronnie Peterson (campeão de 71), Henri Pescarolo, Clay Regazzoni (campeão de 70), Tim Schenken, Andrea de Adamich e James Hunt entre outros.
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| O Lotus 69 de Emerson Patrocinado pela Moonracker e Evadin |
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Emerson correu – claro – com um Lotus 69, branco, com uma estranha asinha dupla no bico do carro, no qual estava escrito “Moonracker”. Nunca soube do que se tratava... Mano Wilson foi de Brabham BT 38. Ambos empurrados por motores Ford só que o do Brabham era o BDA de 1790 cc preparado pela Novamotor dos irmãos Pedrazzani de Bolonha enquanto que o de Emerson era o BDF de 1927 cc “by Cosworth”. Pace correu de Surtees TS 15 com motor Ford Hart. O carro já era um modelo de 1973 que o Moco teve a honra de estrear.
Foram três as corridas, a primeira no finalzinho de outubro, a segunda em 5 de novembro e a final uma semana depois. Duas baterias em cada corrida, com resultado final pela soma dos tempos das baterias. Na primeira etapa deu Emerson, na segunda, Pace, na terceira, Hailwood. De todas, a melhor – meu ídolo que me perdoe – foi a 2ª Etapa, vencida por Pace.
Môco estava no dia dele e seu Surtees, que tinha tido problemas de motor na 1ª etapa, se comportou direitinho. Pelo segundo lugar, em ambas baterias, lutaram Emerson e Hailwood.
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| Pace, despachado na ponta com o Surtees TS15, construído por John Surtees, o único ser humano a ser campeão mundial na motovelocidade e na F1 |
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Lembro que me indignei com o inglês, que chegou à frente de Emerson na 2ª bateria por um nadinha. Como aquele sujeito, “réles” campeão de F2, podia se permitir tal afronta ali, em Interlagos, diante de nada menos que o “meu” Campeão Mundial de F1?
Aquilo, amigos, me marcou, e fui querer saber mais sobre tal Hailwood, que sabia vagamente ter sido um campeão mundial nas motos. Tal cavocada no currículo do sujeito me marcou: descobri que aquele homem iniciara, depois de muitos títulos mundiais em duas rodas, uma nova e vitoriosa fase em quatro rodas. Confesso que eu, que já tinha um fraco pelas motos, ganhei um novo ídolo – Mike “the Bike” Hailwood justo no dia em que meu grande ídolo tomou pau!
Que coisa...
Bom final de semana
Roberto Agresti
PS: as fotos desta coluna, desculpem pela qualidade pra lá de duvidosa, são de minha autoria mas vocês entendem, não?
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