Rewind: volto a fita um pouquinho para falar da 1ª Copa Brasil, de 1970. Estreei no Gepeto contando taras de infância na oficina da Bino no Cambuci (coluna de 17/10/2007). Na segunda coluna, de 31/10/2007, rememorei a deformante experiência no box do 3º GP Brasil de Fórmula 1, com “cobertura fotográfica” de ícones como o motor V12 da BRM de Jean-Pierre Beltoise no chão, o boxer Ferrari apoiado num caixote de feira e o chassi da Shadow torto. Mas, entre o Cambuci de 1969 e o Interlagos de 1974, aconteceu algo de muito importante para mim e para o automobilismo verde-amarelo: a 1ª Copa Brasil, disputada em quatro etapas, todas no mês de dezembro do glorioso ano de 1970, bem mais notório por outra Copa, para a qual c... e andei.
Não é a de Moretti, mas é uma 512S. Aliás, se não me engano, a de Mr Momo era a versão com teto - Clique para ampliar
70 foi o ano em que o Brasil se inseriu definitivamente no mapa-múndi do esporte a motor, e por várias razões. Emerson Fittipaldi, a maior delas, deixou de ser uma promessa e virou realidade e no Brasil realizou-se, no início do ano, o Torneio BUA de Fórmula Ford, com várias corridas em pistas de diferentes pontos do país e, pasmem, televisionadas pela Globo, bem antes de ser vênus e muito menos platinada. Tal torneio, forrado de pilotos estrangeiros e vencido por Emerson, foi o primeiro passo para provar que brasileiros não sabiam apenas pilotar, mas também organizar corridas. Porém, nesse item organização, o passo definitivo foi mesmo a 1ª Copa Brasil.
Aproveitando o frio europeu, armar um gridzinho não foi difícil. Astros locais de primeira grandeza, Emerson num Lola T-210 e Wilsinho numa T-70 e... ilustres desconhecidos ou quase, mas pilotando carrões de babar. Dois Porsches – um 908/2 e um 907– vieram da Espanha, tocados por gentlemans drivers, Jorge de Bragation e Alex Soler-Roig, um esquisito Lotus Europa de um português do qual não lembro o nome (Ernesto Neves, talvez?), um carro japonês feio de dar medo, Nissan, com uns japas descoordenados ao volante com outros ainda mais atrapalhados dando apoio, alguns heróicos brasileiros (Eduardo Celidônio com seu clássico Snob’s Corvair, o Fúria-FNM com Jayme Silva, alguns Pumas e até Fuscas) e... a cerejinha em cima do sorvete: uma Ferrari 512S!
Amigos, não sei se é a cor vermelha, minha descendência peninsular ou o cavallino preto empinando, mas o sonho de ver de perto uma Ferrari correndo era algo pelo qual cortaria fora um dedo da mão ou do pé. Mas sangrou menos convencer meu pai a me levar para Interlagos.
Emerson deu show de pilotagem, e ganhou a Copa Brasil na soma de pontos, vencendo duas das quatro etapas com um carro, a Lolinha T-210 de 240 cv, que tinha menos da metade da potência da Ferrari pilotada pelo italiano Gianpiero Moretti, fundador da fábrica de volantes Momo. O Rato recuperou no braço o que a rossa ganhava no pé direito de Mr. Momo, mas o urro da Ferrari 512S descendo o Retão de Interlagos é algo de inesquecível, música para meus então jovens ouvidos.
E naquele fim de 1970, o país do futebol, mal sabia, encaminhava-se para um grande destino a motor. Pouco mais de um ano depois, Interlagos receberia os primeiros Fórmula 1 e muitas outras importantes corridas. Mas essas são outras histórias. Fast-forward...
P.S.: Acreditem se quiserem. A tal Ferrari 512 que correu em Interlagos em 1970 ainda está viva, saudável e... à venda! Depois de escrever a coluna, acometido por um surto de saudosismo galopante, comecei a navegar na grande rede e, num site de carros clássicos, achei a bicha! Está em Genebra, na Suiça, e no blá blea blá dos vendedores consta que essa Ferrari foi um carro oficial de fábrica, pilotada por Ignazio Giunti e Nino Vaccarella nas 24 Horas de Daytona de 1970. Depois disso foi testada em treinos livres em Le Mans por Jacky Ickx (2º tempo) e, na seqüência, vendida para uma equipe da qual o Gianpiero Moretti fazia parte. No histórico do carro o ponto alto é a vitória de Moretti no “Mount Fuji Golden Race”, em setembro de 1970, que ainda segundo o site foi a 1ª vitória de uma Ferrari no Japão. A corrida em São Paulo também é citada. Na foto, como se pode ler na porta, é o próprio Mr. MOMO ao volante, mas a cena não é de Interlagos. Porém, pelo que me lembro, pintura e adesivos eram esses mesmos.
Para quem quiser saber mais, ou mesmo comprá-la, corram: já mandei minha oferta!. Eis o link: http://www.classicdriver.com/uk