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Buraco no alambrado 31.10.07


Buraco no alambrado: o GP Brasil de 1974

Em janeiro de 1974, a Fórmula 1 desembarcou em São Paulo, vinda da Argentina, onde a temporada começara. Para mim, “experiente” analista da categoria do alto dos meus 15 anos de idade (incompletos), dois Grande Prêmios Brasil no currículo (o 1º, aquele que não valeu para o campeonato, e o 2º, o primeiro válido, no qual o Rato fez Jackie Stewart de gato e sapato), este 3º GP Brasil tinha um sabor especial.

Nada de carpete nos boxes
A razão: eu e meu comparsa de pistas e colega de ginásio, Eduardo Correa, à época atendendo pelo codinome de Toledo, meses antes tínhamos assistido aos primeiros testes pré-campeonato de Emerson Fittipaldi com seu novo carro, o McLaren M23, in loco, em In... terlagos...

Não só In loco como “in mano”! Eu e Toledo, infiltrados sorrateiramente no box, tivemos a honra de empurrar o M23 que não queria pegar, parábola cujo relato minucioso você pode ler na bíblia do mano Correa, “Pela glória e pela pátria”, versículo “Minha contribuição para a temporada de 1974”. Nossa contribuição Toledo, nossa...

Mas, naquele dia de fins de 1973, depois da glória de empurrar o M23, da benção de ouvir o chefe da equipe Teddy Mayer dar conselhos a Emerson, de sermos ungidos pela visão de nosso ídolo em ação na curva do Sol e no fim receber a hóstia em forma de autógrafo, estávamos em verdadeiro estado de graça.

Saber que na branca tomada de ar, ainda sem as inscrições de quem pagaria a conta naquele ano – a Marlboro – um mecânico escrevera “Lil jewel” à mão era como ter encontrado as tábuas dos dez mandamentos, atestado de que estivéramos mesmo no paraíso. Esse detalhe, contado na escola, teve comprovação através de uma foto publicada na Quatro Rodas tempos depois, o que foi equivalente a uma confirmação de milagre pelo Vaticano. E assim fomos beatificados.





Emerson e sua Lil Jewel no Brasil 74
A jornada inesquecível deixou seqüelas, pois a partir disso eu intimamente achava que fazia parte da seita Marlboro McLaren naquela temporada, só que a equipe não sabia disso. E assim, quando chegou o GP, eu estava do lado errado da cerca, na reles arquibancada, sem uniforminho do time, sem credencial, junto à plebe ignara à qual pouco importava quem foi, é, ou era Teddy Mayer, Gordon Coppuck e o sagrado “Lil jewel”, no qual EU colocara minha beata mão. Que situação!

Nos Grande Prêmios daquela época, chegava-se na sexta ou sábado e, uma vez na arquibancada, ninguém arredava pé. Para reservar o sagrado lugar onde no domingo assistiríamos ao melhor espetáculo da terra, o povo juntava-se em alcatéias na qual um lobo dominante escolhia o local para montar seu covil que, uma vez demarcado, teria que ser vigiado para evitar a invasão de lobos de alcatéias vizinhas. Para minha sorte, o Brandão, chefe da minha alcatéia, era um lobo bem grande e mau. Assim, garantido meu lugar para ver o GP, fui zanzar depois do fim dos treinos de sábado, livre como um lobinho, com uma máquina fotográfica na mão e uma idéia na cabeça: entrar no Box e messianicamente me juntar aos meus “pares” da Marlboro McLaren, mesmo que fosse por pouco tempo, e orar em torno a “Lil jewel”.



Os restos do chassi do UOP Shadow
Apesar de bem garibado para receber a Fórmula 1, Interlagos ainda era o que sempre havia sido para mim naquela época, uma sucessão de oportunidades de entrada maiores ou menores no alambrado. Experiente no ambiente, demorou pouquinho para chegar naquela rampa que sobe para o box, logo depois do túnel. Andando rápido, mentalizei que ninguém me perceberia ali sem credencial e, portanto, ninguém me defenestraria até eu cumprir meu sagrado objetivo.

Já na “planície”, o pit-lane, o lobinho-peregrino percebeu o quanto era uma fria tentar se juntar à “sua” seita McLaren. Era o box onde a muvuca de gente parecia disputar o balão recém-caído. Claro! Nosso master-ídolo lá estava e todos os bicões credenciados e seguranças também.

Sem lágrimas, acordei do meu sonho evangélico de me integrar à equipe e, no melhor estilo anos 70, fui dominado pelo espírito de Amaral Netto, “o repórter”. Saquei minha Kodak Instamatic e começei a queimar um filme de doze (!!!) poses. Imagens para comprovar que eu, como numa etapa do Paulista da Divisão Três, estava onde sempre estaria: o box. Imagens para mostrar na escola, em casa, onde quer que fosse. E num site (que é isso???) 23 anos depois!





O motor do BRM de Beltoise
Fotografei coisas, não gente. O motor da Ferrari sobre um caixote de madeira é o emblema da época na qual na máxima categoria do automobilismo ainda se usava improvisação e até graxa. E motor V12 da BRM de Jean-Pierre Beltoise no chão, jogado, abandonado? E os mecânicos de macacão estilo “Caçula de Pneus”?

Box acarpetado? Divisórias decoradas? Monitores? Salinhas de reuniões “privacy”? Nada disso. Cimentão mesmo, e com papel amassado espalhado cá e lá. Uma Fórmula 1 inacreditavelmente rude sob o ponto de vista atual, na qual os carros andavam de lado nas curvas, tinham câmbio na mão e não nos dedinhos, os pedais eram três e a eletrônica zero. Pilotos falavam palavras e não letras de press releases e a cronometragem tinha ponteiros.

Melhor ou pior? Sei lá. Diferente, antigo, mais rústica. Cro-Magnon. Mas certamente mais relax, menos exasperadamente profissional.





De todas as imagens capturadas na Instamatic, minha preferida é a do chassi torto do UOP-Shadow do Jean-Pierre Jarrier, ou do Peter Revson. A dúvida existe porque ambos deram porrões no GP anterior na Argentina.

Encostado num muro qualquer de Interlagos, à vista de quem quer que fosse, tal totem de alumínio amassado funcionava sem saber como uma escultura em homenagem àquela época inocente da F1. Hoje, chassis não amassam, quebram, e quando quebram são imediatamente escondidos, como os logotipos das companhias aéreas de aviões acidentados, atitude que lembra a dos avestruzes com medo, enfiando a cabeça no buraco para se esconder do perigo.

O motor do Ferrari
Satisfeito com o resultado de minha peregrinacão ter virado safári fotográfico, voltava à minha alcatéia quando vejo dois pilotos, ainda de macacão, descendo rumo ao estacionamento do miolo da curva do Sargento. Graham Hill e seu então parceiro na escassa equipe Embassy-Lola, Guy Edwards. Perdi a respiração! Mr. Mônaco caminhava na minha direção e eu estava com câmera na mão! Ele passou e eu nada fiz a não ser olhar suas pernas tortas e o andar vacilante, restos do feio acidente em Watkins Glen em 1969.

Minha carreira de fiel funcionário virtual de equipe de F1 terminara naquela tarde, mas as imagens que capturei na mente e na Instamatic duram até hoje. E quem sabe não foram aqueles momentos a decretar outra carreira, fotografia ou jornalismo por exemplo...

Roberto Agresti

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