Rua Cesário Ramalho, 522. Se a nata dos carros de corrida no Brasil tinha endereço no finalzinho dos anos 60, um deles era esse, a oficina da gloriosa Bino Samdaco, antro de perdição para viciados em motores e corridas.
Quis o destino que esse lugar, no bairro do Cambuci, em São Paulo, estivesse no caminho que eu percorri durante alguns anos, todo santo dia, ida e volta, de casa para o colégio, do colégio para casa.
Roberto Agresti e uma das criaturas da Bino
Quando eu tinha uns nove, dez anos de idade a Bino se instalou lá, e na volta das aulas, eu parava para olhar. Investi horas preciosas em puro encantamento, admirando o que havia para admirar: os Bino Mark II, os Royale, motores sendo esgoelados, pilhas de pneus e até mesmo todos os Fórmula Ford da estréia da categoria no Brasil, o Torneio BUA de 1970, abrigados ali para a etapa paulista.
Luiz Pereira Bueno, pilotaço do Bino, tinha uma perua Ford Belina das primeiras, as que tinham uma imitação de madeira na lateral. Mas a dele era branca e em vez de madeira tinha o tal detalhe em preto fosco, além de rodas “de magnésio”, volante pequeno (Walrod?), “reloginhos” no console e um escapamento ruidoso. Naquela época era um carro envenenado, o tuning de hoje. Eu babava!
Na entrada dessa Bino da rua Cesário Ramalho (pois havia outra, na Rua da Consolação), largado num canto perto do enorme portão quase sempre aberto (para minha sorte), havia um avião monomotor sem asas. O teco-teco jazia ali, empoeirado, uma presença que sempre me intrigou: por que diabos os caras não consertavam o aviãozinho? Talvez porque ele jamais “voaria” tão bem quanto os carros da equipe...
Bino Mark I de Luizinho e Terra Smith, vencedor nas Mil Milhas de 67
Um dia, um sujeito grande com cara de chefe do pedaço acho que se cansou de me ver ali em pé do lado do portão e fez sinal para eu entrar na oficina. Ver os carros tão de perto foi como sair de anos de purgatório e chegar ao paraíso. Comi com os olhos os detalhes do Bino do Luizinho, do muitos Corcéis, dos Royale e de todos os outros carros. Vi nascer, solda por solda, os primeiros Fórmula Ford nacionais. Daquele dia em diante, o interior da oficina da Bino e seu precioso conteúdo eram íntimos, assim como pilotos como Luizinho, Marivaldo Fernandes, Chiquinho Lameirão, Totó Porto e muitos outros, todos parte da minha vidinha, do meu caminho de volta para casa, de minha rotina de criança. Luiz Antonio Greco era o nome do sujeito grande que me abriu as portas da oficina, homem que merece um capítulo inteiro da história do automobilismo brasileiro tanto, pela Bino como pela equipe Willys, que dirigiu com sucesso antes que eu fosse picado pela mosca azul do automobilismo.
Nas segundas-feiras depois de corridas, o ambiente no galpão era efervescente e ainda era possível sentir o cheiro de borracha queimada exalando dos carros. E foi isso, aquele cheiro, aquele ambiente que me levou a uma intensa campanha em casa. Pouco depois, sucesso: obtive o meu “alvará de soltura” para poder ir ver corridas em Interlagos, ver os “meus carros” tocados pelos “meus pilotos”.
A partir da esquerda, Hélio Mazza, Luiz Greco e os irmãos Fittipaldi Ao fundo, Bob Sharp
Quase duas horas de ônibus separavam minha casa do “templo” Interlagos, e para minha sorte descobri que no colégio havia outro tarado disposto a enfrentar o trajeto em nome do esporte. Era o Toledo, como então era conhecido Eduardo Correa, cara de muitos nomes mas uma paixão única e enorme pelo automobilismo, como a minha.
Fomos justamente alçados à condição de luminares do esporte motorizado no ambiente escolar e não fizemos feio, dando lustro no conhecimento dos colegas, atualizando-os sobre detalhes, minúcias e façanhas dos ases do volante daqui e do exterior. Tarefa fácil, uma vez que o sucesso dos nascentes Fittipaldi e Pace jogara muita luz no automobilismo de então. No entanto não refutamos dados sobre lendas mais raras como lobos do canindé e escoceses voadores, coisa que, convenhamos, era o que nos dava a tal ‘luminaridade’ pois de Emerson e Moco ficara momentâneamente fácil falar.
Luizinho com o Bino Mark II
Estes primeiros anos de paixão por corridas nos deram estofo, boas “seqüelas” e histórias para contar. Interlagos, apesar de longe, era um lugar íntimo e assistir qualquer corrida sentado lá no alto da arquibancada, perto da caixa d’água, o melhor programa possível. Agora, muito anos depois de tudo isso, meu caro amigo Eduardo Correa me convidou para escrever histórias de motores no GPTotal. Esta é a primeira, e explica um pouco como tudo começou para mim. Espero que a seqüência seja saborosa para quem gosta disso tudo.